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AUTISMO COMO VOCÊ NUNCA LEU

Hoje compartilho com vocês um relato muito especial escrito pela Guédria Motta, mãe do Davi. Que esta metáfora tão sensível toque vocês assim como tocou a mim. Dedicado a todas as mamães especiais!

“Certa vez, ainda menina, ganhei uma boneca na roda da fortuna, em uma das festas juninas da escola. Lembro-me de ficar imobilizada e de pedir ajuda para a mãe, na tentativa de conferir se o número que ficara na roda era o mesmo que segurava impresso em um bilhetinho entre as mãos. Não acreditava na minha sorte. Afinal, brinquedo era sinônimo de coisa simples, recebido apenas no Natal. Então, ter uma boneca tão linda assim, na metade do ano, fazia de mim uma garota de sorte.
No entanto, a professora que cantara os números no microfone não percebeu todo aquele romantismo que fazia parte do meu sonho de criança. Pegou a primeira boneca que viu pela frente e me entregou com rapidez, pronta para girar a roda novamente.
Com a boneca nos braços não sentia nada além de encantamento. Precisei dar alguns passos para recuperar o fôlego. Foi aí que, um pouco mais tranquila, percebi que a boneca não era tão perfeita assim. A tinta preta que lhe contornara os olhos havia deixado um pingo grande, bem no meio da bochecha.
Fiquei desapontada. Queria uma boneca perfeita, sem o rosto pingado de preto. Evidente, choraminguei para a mãe. Ela me ensinou então, que a gente deve ser grato por aquilo que recebe. Paradas, na frente da roda da fortuna, ela apontou para as bonecas que ainda estavam lá dentro. Vi que todas pareciam iguais. E a boneca que eu tinha nas mãos era diferente. Isso não era nenhum demérito. Ao contrário. O pingo de tinta preta na bochecha tornou a minha boneca especial…
Há um mês eu me lembrei desta boneca. Foi no dia em que recebi o diagnóstico do neuropediatra, que enquadrou meu filho ao grupo de Asperger ou Autismo Nível 1, como agora é correto falar. Isso é certamente um desafio, que recebo e aceito com todo o meu coração. Independente do seu desenvolvimento motor ou de fala, das estereotipias ou qualquer outra limitação, o Davi nunca encontrará em mim nada menos do que uma mãe muito orgulhosa.
Escrever isso é me libertar. Quero compartilhar com vocês novos avanços e tantas coisas que ainda vou descobrir. O diálogo é uma ponte que me conecta com quem está no mesmo barco e com tantos outros que ainda embarcarão nessa viagem.
Davi, como vocês já sabem, é incrivelmente especial…”

Guédria

momm

*Texto publicado com autorização;

25 ago 15
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2 Comentários
  1. Maira Alonso - 26/08/2015 - 13h25

    Lindo, emocionante, sensível e poético como tem que ser.

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